espaço lixo
a insensibilidade da arquitectura que é promovida pelo espaço sucata e outros espaços.
o espaço sucata não pretende criar perfeição, ou melhor, não pretende quase criar mas e tão somente, super recriar as formas, mais que os objectos, preexistentes, os materiais, os novos e os antigos, mas sempre na óptica do “re”. terá sido a criação ultrapassada? tão ultrapassada que quase só me recordo dela no tempo dos hiperbóreos, contemporâneos dos gregos, os quais para eliminarem os radicais livres, terão criado, com certeza, uma anestética dupla face.
não será tão antiga, a morte da criação, mas nesta nossa contemporaneidade a inexistência do desenho que deu lugar à imagem fabricada tridimensionalmente, por um qualquer computador equipado com um qualquer software!!! será que a não forma nos leva a projectar justamente com os olhos? recriando um mundo, uma cidade, uma rua, uma casa, um espaço, de forma brutalista, sem ligações? ao território, à cultura, à sociedade. será que a anestética venceu, em definitivo? pessoalmente não tenho resposta, apenas a leitura de uma pequena análise, muito pouco cientifica é certo, mas que me parece correcta – E a resposta é: QUASE, e quase porque estará nas mãos de todos quantos não concordem com este crescendo rectificar. não deixa de ser um “re”, tal orientação.
no entanto, não será este o único “light motif”, ou pelo menos o principal, mas um dos que estrategicamente conjugado com a velocidade do mundo cibernético, permite saltar o tempo e distanciamento críticos necessários á leitura, análise e verificação de resultados e simultaneamente produzir uma critica arquitectónica sobre as obras que, por nós, passam.
enquanto o modernismo permanece fiel à essência das formas, as geometrias inimagináveis, referidas por koolhaas, mas que simultaneamente têm a pretensão de despertar interesses, não pela superstrutura mas pela pele que a cobre, num dilúvio de novas formas e materialidades, excedem amplamente os cânones mais minimalistas, mas, sendo simplesmente exequíveis, então porque não realizá-las!
esta pele que veste e confere interesse à estrutura é como um siroco do deserto, de tal forma intenso, quente e consequentemente asfixiante, que mal deixa transparecer a alma, é esta pele que poderemos mudar, ou melhor, recriar a qualquer momento.
mas não é koolhaas o único a olhar desta forma, de modo diverso gehry torna a sua arquitectura anestética, indiferente ao mundo, introvertida nos seus conceitos e quase imperceptível nas relações com o lugar, com a cultura e com a sociedade que a rodeia. aqui, uma vez mais, só a pele conta, ao contrário da fabulosa arquitectura monumental gótica, na qual a estrutura se confunde com a arquitectura.
por outro lado, esta pele poderá ser entendida, como referido em ambos os textos, de acordo com a superficialidade e o espectáculo da arte contemporânea com que se arquitecta o espaço actual.
no entanto, independentemente da nossa fiel vontade de seguir um determinado movimento, estilo ou simples tendência, a insensível arquitectura, o espaço lixo de alguma forma já nos contagiou, nem que isso signifique a negação de qualquer racionalidade.
voltando, de novo, aos espaços criados e à famosa máxima de sullivan “a forma segue a função”, que a arquitectura nossa contemporânea tende a não seguir, mais ainda poderemos acrescentar sobre o facto da função pouco interessar, foi relegada para segundo plano, ou talvez terceiro. Senão vejamos, a utilidade comanda o desenvolvimento, mas a “mundialização” ou terei pretendido dizer “mundanização”, transporta-nos, paralelamente, a uma competição de tal forma libertina, que a própria arquitectura, enquanto arte/comercial, se vê na infeliz obrigação de estimular o espectáculo.
é axiomático que os arquitectos, alguns arquitectos, se lisonjeiam com a fama, ainda que efémera, das suas obras. ofuscados pela fama e não só, diria que em alguns casos mais superficiais, obstinados pela formalidade das imagens que produzem.
não condeno, simplesmente partilho que aprender para “arquitectar” com qualidade é um processo eclético e cabe-nos a nós, individualmente ou em grupo, a apreensão do que de melhor vemos, sentimos e vivemos, encerrando a arquitectura anestética, o junkspace e todos os restantes modelos, estilos, movimentos e tendências e daqui extrair o nosso próprio rumo de pensamento, os nossos próprios dogmas. afinal, as verdades em que acreditamos e as quais nos permitem seguir a nossa actividade de bem com a nossa percepção.
por fim, quero uma imagem inserida na memória: “over the river”, de christo.
o artista plástico, de forma semelhante às descritas, cobre com a nova pele as estruturas eleitas, construidas ou naturais.
escolho “over the river” pela intensidade do conceito subjacente à atribuição da nova imagem, no caso a um elemento natural tão poderoso como o rio. será isto o expoente máximo da recriação?
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- Published:
- 1 Junho, 2008 / 4:58 pm
- Category:
- arquitectura
- Tags:
- arquitectura, espaço lixo, junk space
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