barroco. elementos decorativos? simples decoração ou arquitectura.
começaria por expressar, desde já, que partilho a opinião de corrente que defende que o uso de elementos decorativos no barroco português é, simultaneamente, um processo de decoração de edifícios e uma forma de fazer arquitectura. de seguida, apresentarei um conjunto de argumentos que validem esta tomada de posição, iniciando com o reconhecimento de que o barroco enquanto processo de ornamentação, na sua vertente mais decorativa, se destaca pelas intervenções produzidas em edifícios religiosos maioritariamente localizados a sul.
aproveitando os edifícios existentes, em regra românicos e chãos, os arquitectos barrocos “colaram” e acrescentaram elementos decorativos, como molduras nos arcos e vãos diversos em talhas douradas, azulejaria nas paredes, elementos escultóricos nas fachadas e interiores, grandes altares dourados nas capelas-mores, sempre com o objectivo final de provocar emoções, sensações, paixões, movimentos e dinamismos na arquitectura clássica, a qual se lia, até então, simples e estática.
numa das suas formas de expressão mais clássica, a pintura, quer de azulejos quer de frescos, com o recurso à técnica “trompe l’oeil” (encanto do olho) transformam, inequivocamente, numa visualização tridimensional a forma bidimensional como o observador lia a decoração nas abóbadas e paredes, a qual, embora ilusória, marca uma séria interferência com a leitura espacial plana até então produzida. Simultaneamente, a técnica de pintura em quadratura, recorrendo a quatro pontos de fuga, ilude uma vez mais o observador, desta feita a partir de qualquer ponto de vista.
bastaria, assim, a utilização destas novas técnicas para proporcionar uma nova leitura, ainda que ilusória, da espacialidade dos edifícios e quando assim acontece o processo arquitectónico encontra-se de imediato implicado e estamos perante uma nova forma de pensar e produzir arquitectura ou alterações profundas nas arquitecturas anteriores.
no entanto, a decoração não é só pintura, senão vejamos: a colocação estratégica de elementos escultóricos na dobragem de cantos e recantos confinados pelas paredes ou, criteriosamente, ao longo de uma parede lisa e estática proporciona a necessária ondulação dinâmica, promove o adoçar de formas e a consequente criação do movimento tão perseguido pelos arquitectos do barroco. mas a decoração não termina no interior, transborda para o exterior sublimando o carácter teatral e cénico de exaltação da monumentalidade do edifício, ao adicionar elementos arquitectónicos de grande volumetria, como torres sineiras, pilastras, primeiros pisos falsos e galilés envolventes, falo já do barroco cénico.
no entanto, e contrariamente ao esperado, as novas criações arquitectónicas deste período (aproximadamente 1660/70-1750), quando desprovidas dos artifícios barrocos, passam claramente por chãs, tal a depuração de formas e estruturas mas, logo de seguida são sobrecarregadas com todo o “catálogo” de elementos arquitectónicos e decorativos típicos desta época. poder-se-á pensar, que agora só existe a mudança arquitectónica e, para cúmulo, motivada não por intermédio de elementos decorativos mas por grandes elementos arquitectónicos. desenganemo-nos, pois o que é uma pilastra, uma torre sineira, um falso piso superior altamente ornamentado, uma alteração de fachada com introdução de pórticos trabalhados e a criação de grandes escadarias senão, na sua essência, elementos decorativos, de outras escalas é certo, mas igualmente perseguidores do mesmo objectivo: o dinamismo espacial, a emoção, a paixão, a “sensorialidade” extrema, o movimento, o provocar da estupefacção dos mortais perante a arquitectura de deus e principalmente do poder, relegando-os, mais ainda, para a condição de simples mortais incapazes de atingir tamanho estado de elevação divina.
mas o barroco cénico é, também, exterior. transpõe as preocupações para fora da “pele” do edifício, para a própria urbanidade da envolvente, através da concepção de grandes espaços urbanos centrados no edifício igreja, na avenida que a ele conduz e simultaneamente na promoção dos elementos secundários mas, igualmente, necessários ao funcionamento do edifício principal.
é neste barroco, de cariz mais cénico e espectacular, e que se encontra indissociavelmente “agarrado” ao decorativo, que a ilusão dos observadores é extremada, que os elementos arquitectónicos exteriores se projectam no interior e a decoração interior transborda rumo ao exterior, que a associação entre os elementos decorativos e arquitectónicos é simbiótica, complementando-se mas não perdendo a identidade caracterizadora enquanto una.
é neste barroco, e em forma de conclusão, que encontro argumentação para confirmar a afirmação redigida no primeiro parágrafo deste texto.
o uso de elementos decorativos no barroco português é simultaneamente um processo de decoração de edifícios e uma forma de fazer arquitectura.
About this entry
You’re currently reading “barroco. elementos decorativos? simples decoração ou arquitectura.,” an entry on just architecture…
- Published:
- 3 Junho, 2008 / 12:56 am
- Category:
- arquitectura
- Tags:
- arquitectura, barroco, história
No comments yet
Jump to comment form | comments rss [?] | trackback uri [?]